Este é o primeiro artigo de uma série com minha avaliação do Debian Etch e Ubuntu Feisty Fawn, lançados em abril de 2007. Os demais artigos serão publicados em breve, conforme sejam finalizados.
Abril foi um mês bastante movimentado no mundo Linux. Duas das maiores distribuições publicaram novas versões estáveis: o Debian 4.0 (Etch) saiu dia oito, quase dois anos depois do Sarge, e o Ubuntu 7.04 (Feisty Fawn) saiu duas semanas depois (quinta-feira, dia 19). Eu uso as duas no meu desktop principal e como iria fazer a atualização de qualquer modo, resolvi aproveitar para dedicar algum tempo a uma resenha simultânea.
Meu intuito não é criar mais uma polêmica com um artigo do tipo “Ubuntu matando Debian”: eu sinceramente não acho que o Ubuntu tenha esse tipo de tendência suicida. Esta breve resenha é somente para oferecer minha visão de usuário e entusiasta das duas distribuições. Eu sou programador (e, se é que isso faz alguma diferença, atualmente estou usando principalmente Ruby, Java e Haskell), portanto esta resenha deve ser mais útil para quem tem um perfil parecido. Mas, se este não é seu caso, não precisa abandonar a leitura ainda. O velho ditado já dizia que ninguém é de ferro e quem sou eu para contrariar velhos ditados? Eu também escuto música, assisto vídeos e uso alguns aparelhos externos como câmeras digitais e tocadores de música, coisas que todo mundo exige de um computador hoje em dia — e que em muitos casos são tudo que se exige. Só não espere encontrar algo sobre aplicativos de escritório por aqui.
O sistema
A máquina que estou usando para estes testes é meu sistema de casa. Na época em que a montei (há uns bons dois anos e meio) ela era razoavelmente possante, mas acho que hoje em dia equivale a um PC médio desses que já vêm encaixotado e que os vendedores de supermercado empurram para quem está “procurando um computador”. É um Athlon XP (32 bits) 2000+ com 512MB de memória RAM, 160GB de disco rídigo e placa de vídeo com chipset NVidia FX 5200 e 128MB de memória.
Na minha classificação esta máquina com certeza não está acima de “razoável”. Apesar disso, tanto com o Debian como com o Ubuntu, ela consegue se sair bem para o que preciso atualmente e não demonstra sinais de cansaço mesmo quando estou usando um ambiente de desenvolvimento muitas vezes considerado pesado (e, para quem conhece, este seria o Eclipse com alguns plugins personalizados), navegando com algumas abas abertas e com os efeitos de desktop 3D ativados.
Portanto, ponto para as duas distribuições no quesito performance.
Instalação
O processo de instalação para cada umas das duas distribuições demorou pouco mais de uma hora. Boa parte deste tempo foi usado na comunicação com os servidores. Eu fiz a instalação logo após os lançamentos oficiais e é de se esperar que o tempo seja um menor agora que o servidores estão um pouco menos sobrecarregados. Obviamente, tudo isso depende também da qualidade da sua conexão com a Internet.
Esperar uma hora pela instalação do sistema operacional não é uma das coisas mais divertidas que se pode fazer com um computador. No entanto, a instalação do Ubuntu brilha nesta área. O processo todo é feito a partir de um CD Live e o sistema pode ser usado normalmente durante a instalação. Isso significa que enquanto tudo é instalado você pode ler seus e-mails e notícias ou então começar a preparar algum artigo para o seu blog. A instalação do Debian, por outro lado, roda em modo texto. Você ainda pode navegar na Internet usando o lynx ou algum outro navegador em modo texto, mas a experiência com certeza não é a mesma. De qualquer modo, o processo não é tão traumático porque não é todo dia que você vai reinstalar um sistema Debian do zero. O meu poderia ter sido atualizado normalmente a partir da versão Sarge, só fiz uma instalação limpa para poder relatar minhas experiências aqui para meus 80 milhões de leitores.
Outro recurso da instalação do Ubuntu que me agradou bastante foi a habilidade de importar dados pessoais de outros sistemas operacionais. Isto permite, por exemplo, que você importe do seu Windows coisas como mensagens de e-mail salvas localmente, endereço de acesso ao Messenger e endereços gravados no seu navegador. Eu não precisava disso dessa vez, mas teria sido bem útil há um ano e meio quando instalei meu primeiro Ubuntu (que também foi meu primeiro Linux). Parabéns para a equipe do Ubuntu por facilitar a migração.
Colírio para seus olhos
Um dos recursos mais polêmicos desta versão do Ubuntu foi a inclusão de efeitos 3D para a área de trabalho. Durante o desenvolvimento do Feisty os boatos se espalhavam rapidamente. Era comum escutar numa semana que os efeitos estariam dentro e ver a notícia ser desmentida na semana seguinte.
Falar em efeitos visuais para desktop Linux ultimamente é falar de XGL, Compiz e Beryl. Porém, o pivô de toda a polêmica não foi nenhum dos três. Por trás de tudo estavam os drivers binários.
Os drivers de código-aberto para placas 3D sob Linux ainda não têm todos os recursos necessários para proporcionar o tipo de experiência que o Ubuntu queria. Como a filosofia do projeto é não incluir código proprietário na instalação padrão, eles precisaram chegar a algum meio termo razoável. E finalmente conseguiram: disponibilizaram os drivers proprietários de forma fácil após a instalação. Desse modo, quem quer ativar os recursos avançados pode fazê-lo facilmente ao mesmo tempo que aqueles que não fazem questão não precisam executar código proprietário.
A instalação dos drivers 3D está a dois cliques da instalação padrão. Depois que a instalação estiver concluída, é só parar de ler seus e-mails, reiniciar a máquina e seguir para Sistema > Administração > Gerenciador de Drivers Restritos. Isto vai fazer com que o driver seja automaticamente baixado e instalado. Para ativar os efeitos é só marcar um campo em Sistema > Preferências > Efeitos da Área de Trabalho. Fácil assim.
Resumo
Instalar e rodar as duas distribuições está bem fácil. A configuração padrão vem com os programas mais comuns e depois só é preciso adicionar aqueles outros mais específicos. Não é preciso saber exatamente que programas você precisa para fazer uma instalação, mas é possível escolher um por um se você souber o que quer.
O Ubuntu sai na frente para quem quer admirar alguns efeitos visuais interessantes no desktop por permitir a instalação fácil dos drivers binários e a ativação simples dos recursos visuais. Nada é impossível com o Debian, mas talvez você tenha que pesquisar e perguntar para mais pessoas e acabe levando um pouco mais de tempo.
Este artigo é apenas a primeira parte da resenha. A próxima parte, que será publicada em breve, irá se concentrar nos recursos multimídia, incluindo integração com dispositivos externos.