Por que a cultura nerd tem que acabar

Este post foi publicado originalmente em inglês no blog de Pete Warden.
Não costumo fazer traduções aqui, mas este foi um assunto que me atingiu tão em
cheio que não pude evitar. Talvez você ache que o Pete chegou a uma conclusão um
pouco drástica, mas mesmo assim considere as idéias que o fizeram chegar lá.
Usando a analogia do Pete, não vamos deixar que os ideias da Aliança Rebelde
terminem por formar um novo Império.

Eu conheci minha primeira namorada através de um MUD, e tive que voar 7000
milhas para conhecê-la pessoalmente. Eu li uma versão impressa do Jargon File
em 1995 e ele virou minha bíblia. Só de ler suas descrições da Internet eu soube
que ela iria mudar o mundo, até mesmo antes da web, e assim que pude me
esgueirei para o laboratório de computação da minha universidade local com uma
conta emprestada para experimentar as maravilhas da Usenet, FTP e Gopher.
Escolhi minha faculdade porque Turing um dia ensinou lá, e o projetista do chip
ARM
seria um dos meus professores. Meu primeiro emprego quando saí da
faculdade foi ajudando a portar o Diablo original para o primeiro Playstation, e
passei cinco anos escrevendo games. Eu mergulhei fundo em programação de GPU. Eu
trabalhei por quase duas décadas tanto em grandes empresas de tecnologia quanto
em startups. Eu já passei incontáveis horas escrevendo sobre programação por
puro amor. Eu sou um homem crescido que ainda joga Dungeons and Dragons!

Meu ponto é que se alguém pode dizer que é um nerd, esse alguém sou eu. Como um
adolescente solitário que cresceu no interior da Inglaterra, ler o Portrait de
J. Random Hacker
me deu um maravilhoso choque de excitação e reconhecimento.
Eu nunca havia encontrado alguém assim, mas saber que havia outros como eu por
aí me deu esperança. Conforme eu avancei na graduação, comecei a descobrir
algumas pessoas que tinham um orgulho perverso de serem geeks, mas ainda era
raro e bastante distante da cultura mainstream. Ninguém realmente entendeu
porque eu aceitei um trabalho mal pago em programação de games ao invés de
entrar para um banco, e os olhos da maioria das pessoas se reviravam quando eu
mencionava que trabalhava com computadores. No decorrer dos anos eu gradualmente
montei um grupo de amigos que compartilhavam interesses em ficção científica,
quadrinhos, games e computadores. Foi a cultura nerd que nos reuniu e o suporte
deles foi salvador, mas foi difícil de encontrá-los, e nós ainda estávamos
bastante distanciados do mainstream cultural.

No decorrer da última década, isso mudou. Adaptações de histórias em quadrinhos
são a aposta mais segura em Hollywood. O Senhor dos Anéis e Game of Thrones
transformaram a fantasia em algo que qualquer um pode curtir sem
constrangimento. Talvez mais importante é que agora nerds têm dinheiro, poder e
status. Os dirigentes e funcionários das maiores e mais crescentes empresas do
mundo somos nós, e a cultura mainstream deixou de nos ridicularizar para nos
respeitar. Startups são sexy. Nós vencemos.

E é aí que está o problema. Ainda estamos nos comportando como a Aliança
Rebelde, mas agora somos o Império. Chegamos aonde estamos por ignorar intrusos
e acreditar em nós mesmos até quando mais ninguém acreditaria. As décadas
provaram que nosso jeito estava na maior parte certo e que os críticos estavam
errados, então nosso hábito de não escutar tornou-se profundamente arraigado.
Virou até meio que um ritual de aproximação a prática de atacar críticos da
cultura porque eles geralmente não entendiam o que estávamos fazendo além de
superficialmente. Não tinha muito problema porque ninguém além de um punhado de
leitores de fórum viam os discursos inflamados. Este mesmo reflexo torna-se
um grande problema agora que nerds têm poder real. O escândalo GamerGate me
deixou com vergonha de ser gamer, mas o assustador é que o comportamento
original de atacar críticos parecia algo que eu sempre via na nossa cultura, e
tolerava. Só chegou a me chocar quando cresceu tanto a ponto de virar ameaças
de estupro e morte, e vi corporações mainstream como a Intel se dobrando em
resposta à pressão que podemos exercer.

Foi por isso que o comentário de Marc Andreessen que o Vale do Silício é cultura
nerd e que os nerds são os inimigos naturais dos bros
pareceu tão errado. Sim,
nós éramos pertubados ou ignorados pelos bros, mas isso era quando não tínhamos
dinheiro nem poder. Agora que temos status, os bros não têm problema de nos
tratar como amigos ao invés de vítimas, a ponto de ser difícil pensarmos neles
como bros. Eu conversei com a maioria das empresas de VC do Vale uma hora ou
outra, e muitos dos sócios veêm das áreas de negócios ou finanças. Existem nerds
lá, claro, e eles controlam sim a cultura, mas eles também se dão perfeitamente
bem com os MBAs e suas formalidades. O mesmo vale para toda a indústria de
tecnologia – eles podem ter tentado roubar nosso almoço vinte anos atrás, mas
agora eles estão bem felizes tocando a parte de negócios enquanto nós cuidamos
da engenharia.

Uma das coisas que adoro na cultura nerd é o quanto ela valoriza evidência e
verificação de fatos. Quando estou otimizando código, minha intuição de que
partes são mais lentas em geral está largamente errada, então eu aprendi do
jeito difícil que tenho que rodar o profiler loucamente antes de tentar
consertar qualquer coisa. É uma habilidade essencial para lidar com
computadores, nossos pressentimentos iniciais em geral não funcionam em um
domínio tão deslocado, então o ceticismo vira hábito. O que me surpreendeu é
como nós abandonamos esse hábito quando confrontados com evidência sobre nós
mesmos. Praticamente toda estatística que conseguimos acompanhar mostra
menos mulheres obtendo diplomas em ciência da computação e trabalhando como
engenheiras em comparação com os anos 80. É fato elementar que somos uma
indústria desbalanceada de todo tipo de forma, de raça a classe e gênero, e
estamos piorando.

Eu não estou dizendo que sei as respostas, mas você não precisa ser um guerreiro
da justiça social para notar que algo está muito errado em algum lugar. Até o
Jargon File admitiu, parafraseando, que hackers rotineiramente se comportam
como babacas
. É loucura demais imaginar que essa tolerância profundamente
arraigada de comportamento ruim pode afastar as pessoas?

Quando olho ao redor, eu vejo a cultura que construímos se transformar de uma
revolução libertária em uma incumbência repressiva. Nós construímos dispositivos
mágicos, mas não ligamos o suficiente para proteger gente normal de se machucar
quando os usam
. Não ligamos que muitas crianças por aí com potencial para
se tornar hackers incríveis são afastadas em cada estágio do processo larval.
Não ligamos para as pessoas que se perdem quando balançamos o mundo, só para os
vencedores (que tendem a parecer bastante conosco).

Eu sempre esperei que fôssemos mais virtuosos que o mainstream, mas no fim das
contas só nos faltava poder para causar muito dano. Nosso senso de vitimização
internalizado tornou-se uma justificativa perversa para a perseguição. É por
isso que estou pedindo um tempo da cultura nerd. Ela fez coisas maravilhosas,
mas hoje em dia é como uma base de código legada rastejante tão impregnada
de problemas que a única decisão racional é jogar fora e construir algo melhor.

Com o que algo melhor se pareceria? O movimento Maker me dá esperanças,
porque a inclusão de todas as crianças que estamos sentindo falta é feita desde
o início. Qualquer seja o futuro, o importante é que precisamos valorizar ser um
ser humano decente muito mais do que valorizamos agora. Nossa tolerância de
comportamento babaca deve terminar, e é uma parte tão essencial da cultura nerd
que aniquilar a coisa inteira da face da terra é o único jeito de garantir.